CRAVO MUITO BEM TEMPERADO
Casa Fiat de Cultura abre sua programação musical com recitais de três gerações de cravistas
Ao tanger das cordas, o instrumento revela sua vasta sonoridade, marcada pela pureza da harmonia e a beleza dos timbres. Talvez por isso, ao assistir a um recital de cravo, muitos espectadores tenham a sensação, única, de partir em viagem rumo aos mais fascinantes territórios da expressão musical. O público mineiro poderá viver esta experiência nos dias 24, 26 e 28 de junho na Casa Fiat de Cultura com o projeto O Cravo no Brasil - Três gerações. Pela primeira vez no paÃs, os cravistas Roberto de Regina, Ilton Wjuniski e Bruno Martins se apresentam respectivamente em três noites de espetáculo.
Com entrada franca, a iniciativa inaugura o programa Música na Casa Fiat de Cultura, que oferecerá ao público outras atrações ainda este ano. Após dois anos de culto à arte, com a realização de importantes exposições e presença de mais de 90 mil visitantes, a instituição amplia sua atuação valorizando a cultura musical. Os instrumentistas interpretarão algumas das mais importantes peças escritas para o cravo, cujas texturas sonoras formam-se a partir do tanger ou do beliscar de cordas. O objetivo da iniciativa, ao reunir diferentes gerações de instrumentistas, é aproximar o cravo - e sua sonoridade única - do público, que terá a oportunidade de conhecer melhor a história do instrumento.
Antes de abrir caminho para a música, a Casa Fiat de Cultura buscou consolidar-se como espaço de referência em artes plásticas. âApós belÃssima exposição com 150 obras do escultor mineiro Amilcar de Castro, nada mais interessante para ampliarmos nosso compromisso com a cultura do que um recital de cravoâ, ressalta o presidente da Casa Fiat, José Eduardo de Lima Pereira.
Ele conta que, para abrigar os recitais de cravo, que exigem ambiente de acústica quase perfeita, foi preciso concluir as instalações antiacústicas do auditório e construir uma estrutura adequada à música de câmara. âA partir de agora, desejamos que a Casa Fiat seja um pólo de formação de platéia e que contribua para a formação de jovens músicosâ, explica.
O projeto conta com a curadoria do cravista Felipe Nabuco-Silvestre, fundador do Centro de Estudos de Música Barroca do Porto, em Portugal, onde esteve à frente de importantes eventos e dirigiu, sob os auspÃcios da União Européia, o Ensemble Barroco Europeu, orquestra de câmara formada por jovens de diversos paÃses. Nabuco-Silvestre também realizou, com a orquestra russa âRussian Virtuosiâ, a apresentação do concerto para cravo e cordas de Lindemberg Cardoso, intitulado âO vôo do Colibriâ.
Para ele, o encontro entre Roberto de Regina, Ilton Wjuniski e Bruno Martins marca um momento único na história do cravo no Brasil. âEles nunca se apresentaram juntos e, pela primeira vez, terão a oportunidade de reunir obras importantes em um mesmo eventoâ, explica. O curador considera a escolha acertada e espera que o público se aproxime da música do século XVIII. âAcredito que a platéia será seduzida pelo som do cravo, que conta com repertório vasto e pouco difundido no Brasilâ.
Ao executar uma peça, o cravista não só ressalta a força de obras importantÃssimas, escritas ao longo de quatro séculos por mestres como Bach, Haendel, Rameau ou Scarlatti, como redefine as múltiplas possibilidades daquele que é considerado o "instrumento da exatidão".
Workshop para crianças e adolescentes
Além da programação aberta ao público, nos dias de espetáculo serão realizadas três apresentações, no perÃodo da tarde, para alunos de escolas públicas. Com caráter didático, tais recitais contarão com um workshop sobre a história do instrumento, com detalhes acerca de sua construção, sua mecânica e seu significado para as sociedades dos séculos XVII e XVIII. As demonstrações acontecem à s 16h dos dias 24, 26 e 28 de junho, orientadas pelo cravista responsável pelo recital da noite.
Além do espetáculo inédito no paÃs, cinco cravos e uma espineta estarão em exposição na Casa Fiat de Cultura, no perÃodo de 24 a 28 de junho. Entre eles, réplicas de clavecin (cravo) franceses e um exemplar do clavecin Brasil, cravo que pode ser redobrável, construÃdo no Brasil por Abel e Wilian Takahashi e de propriedade do cravista Antônio Carlos Magalhães.
O projeto O Cravo no Brasil - Três gerações é uma realização da Casa Fiat de Cultura com patrocÃnio da Aethra Componentes Automotivos e apoio cultural do jornal Estado de Minas e Rede Globo Minas.
O repertório
Na primeira noite do evento, no dia 24 de junho, o cravista Roberto de Regina, o primeiro facteur de clavecin (construtor de cravo) no Brasil, apresenta, entre outras obras, algumas sonatas de Scarlatti. Como surpresa para o público, o intérprete rebatizou as peças com nomes brasileiros. Já no dia 25, Ilton Wjuniski dedicará a primeira parte de sua interpretação à música francesa do perÃodo de LuÃs XIV e LuÃs XV. Na segunda parte, o instrumentista dedica-se a obras espanholas do século XVI. A apresentação se encerra com uma sonata de Carl Philip Emanuel Bach, musicalmente o filho mais importante de Johann Sebastian Bach. Por fim, no dia 28 de junho, última noite do evento, o cravista Bruno Martins, de apenas 19 anos, apresenta peças de Johann Sebastian Bach, músicas espanholas do século XVI e obras de compositores do século XX, como o alemão Hans Werner Henze.
Os intérpretes
O carioca Roberto de Regina foi o primeiro facteur de clavecin no Brasil. Estudou música antiga com integrantes da Pró-Música de Nova York, fez regência de coral com Roberto Shaw e construção de cravos com Frank Hubbard. Em sua discografia, destaque para os álbuns com as Sonatas de Scarlatti.
Roberto de Regina realiza concertos semanais na Capela Magdalena, no Rio de Janeiro (RJ). Além disso, desenvolve há seis anos o projeto Reaprender a Ouvir para alunos da rede pública no mesmo local. Durante quatro dias da semana os alunos são recebidos com trajes da época e assistem a concertos didáticos. Após o recital na Casa Fiat de Cultura, Roberto de Regina se apresenta no Festival Vale do Café e na Série Música nos Museus, no Rio de Janeiro.
Ilton Wjuniski foi o primeiro cravista brasileiro a conquistar três prêmios internacionais em Paris, Edimburg e Nova York. Neste último, concorreu com cantores, pianistas, quartetos e instrumentistas de todo o mundo. O cravista lecionou na Academie Musicale de Villecroze, na França, e no Conservatório Superior de Salamanca, na Espanha. Em sua discografia, destaque para os álbuns J.S. Bach âFrench Suitesâ, gravado pelo selo G.M. Recordings, de Boston (EUA), e As SuÃtes de Rameau, gravado pelo selo francês âLyrinxâ. Paulistano, Ilton reside em Paris há mais de 20 anos, onde é professor titular e dirige um departamento de música antiga em um dos conservatórios da Prefeitura de Paris. Este ano, realizou concertos na França, tocou, gravou e lecionou em Praga e Edimburgo.
Depois de Belo Horizonte, os próximos concertos incluem a Ãntegra das sonatas de Bach para flauta e cravo, na França e na Alemanha, em duo formado há mais de 20 anos com o flautista Michael Faust. Ilton também participa como um dos experts em clavicórdio, do Simpósio da Sociedade Alemã de Clavicórdio, que acontecerá na cidade natal do compositor Haendel, Halle, na região da Saxe.
Para representar a jovem geração de cravistas, a Casa Fiat de Cultura convidou Bruno Martins, que recentemente conquistou a única vaga disponÃvel na classe de Cravo e Música Antiga do Conservatório Nacional Superior de Música de Paris, onde reside há quatro anos. Atualmente, também integra o conjunto de música de Câmara Opalescences , com o qual acaba de gravar o Membra Jesu Nostri, de Buxtehude, e o Stabat Mater, de Pergolesi.
Após o recital na Casa Fiat de Cultura, Bruno Martins se apresentará em São Paulo e em Santos, sua terra natal. Depois segue para a Europa onde fará uma turnê pela Bretanha Francesa. Em seguida, a convite do Conservatório Superior de Música de Paris, o cravista participará de um estágio com Huguette Dreyfus, renomada cravista francesa, na cidade de Villecroze.
O Cravo, instumento da exatidão
à preciso vasta técnica para que se faça jus à s múltiplas possibilidades do âinstrumento da exatidãoâ. Nascido na Idade Média, fruto da mecanização dos antigos saltérios â instrumento de cordas que possui um variado número de cordas montadas sobre uma caixa acústica de madeira â o cravo torna-se referência nos séculos XVI, XVII e XVIII, a ponto de compositores como Bach, Haendel, Rameau e Scarlatti dedicarem-lhe grandes e significativas obras. Historicamente vinculado ao deleite das elites, o instrumento é ainda hoje cultuado nos paÃses europeus, principalmente na Holanda, onde não se deixou morrer o gosto pela música antiga. Em torno do cravo, imortalizado por nomes especÃficos em diversas lÃnguas â cravo, em português; harpsichord, em inglês; clavecin, em francês; e cembalo, em italiano â foram escritos mais de 300 anos de música.
Nos tempos de Jonhann Sebastian Bach (1685-1750), nenhuma peça de música de câmara ou orquestral estaria completa sem o instrumento. Contudo, apesar de ser usado como base de acompanhamento, o próprio Bach irá tratá-lo, em uma série de partituras especiais, como instrumento solista. Em 1722, Bach compõe metade da coleção que compreende 48 prelúdios e fugas, que recebeu o nome de O Cravo Bem Temperado, para muitos crÃticos o seu melhor trabalho para teclado. Mais tarde, compilou um segundo livro, divulgado em 1744, com o tÃtulo de Vinte e quatro prelúdios e fugas. Os dois volumes são conhecidos como livros 1 e 2 do Cravo bem temperado.
Como o repertório dos intérpretes evoluiu, o cravo não sastifazia mais a exigência da criação musical e deu lugar ao pianoforte, instrumento capaz de produzir sonoridades fortes e suaves, o que não acontecia com o cravo. A partir do surgimento das grandes salas de concerto, o piano instalou-se definitivamente e o cravo caiu no esquecimento. Atualmente, poucas são as escolas e universidades que incluem, no currÃculo, o cravo e a prática da música antiga em instrumentos da época. Segundo Nabuco-Silvestre, no Brasil, duas universidades têm o curso de cravo em sua grade, com mestrado e doutorado: Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ). Apesar de não ser um instrumento popular, também nos séculos XIX e XX inúmeros compositores dedicaram obras importantes ao cravo, como Manuel de Falla e Ligueti. Um dos bons resultados do cravo na música fica a cargo do pianista de jazz norte-americano Keith Jarret, que tem gravações das sonatas de Bach para flauta e cravo e as Variações Goldberg.
No Brasil, Cláudio Santoro, Willi Correia de Oliveira e Lourival Silvestre, também dedicaram peças exclusivas para o cravo.
Serviço:
âO Cravo no Brasil - Três gerações de cravistasâ
Local: Casa Fiat de Cultura (Rua Jornalista Djalma Andrade, 1.250, Belvedere)
Dia 24 de junho - Roberto de Regina (1ª geração), às 20h30
Dia 26 de junho - Ilton Wjuniski, (2ª geração), às 20h30
Dia 28 de junho - Bruno Martins, (3ª geração), às 20h30
A entrada é gratuita, com capacidade limitada a 180 lugares.
Importante: O workshop para crianças e adolescentes de escolas públicas será às 16h, durante os três dias de recital, na Casa Fiat de Cultura.
Mais informações pelo telefone: (31) 3289-8900 www.casafiat.com.br
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