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MUTAÇÕES - A CONDIÇÃO HUMANA
INTRODUÇÃO
Adauto Novaes
Durante a realização do ciclo de conferências Mutações – Novas Configurações do Mundo (2007), uma questão se impôs: “O que é humano?” A pergunta é, certamente, provocada por uma verdadeira revolução antropológica — revolução tecnocientífica — que, segundo alguns pensadores, tende a levar a uma “desqualificação definitiva” do homem.
São múltiplos os caminhos que se abrem para responder à questão, mas, o que nos interessa neste novo ciclo pode ser resumido na seguinte pergunta: “o que é o homem no mundo?” Os antigos faziam da cidade a condição de uma vida plenamente humana. A famosa frase “O homem é um animal político por natureza” quer dizer, entre tantas interpretações, que o homem, dotado de uma linguagem articulada — o logos — tem a capacidade de fundar comunidades onde são definidos o justo e o injusto, o legal e o ilegal, os vícios e as virtudes. Humanistas e pensadores políticos do Renascimento retomam a definição do homem como um ser essencialmente político cuja natureza humana só se realiza na participação ativa da vida pública.
Já em nosso tempo uma das perguntas básicas é: o que é feito da condição humana em um mundo que dedica uma reverência religiosa à mercadoria como algo que exerce uma potência sobrenatural sobre o homem? Mais: com o grande avanço da biotecnologia e da tecnociência, outro problema se apresenta.
A antropologia sempre nos disse que, apesar das diferenças, pode-se afirmar que todos os homens são iguais, o que nos permite ver o mundo com menos estranhamento, menos radicalmente diferente de nós mesmos. Contudo, o que dizer diante das promessas — realidade para muitos — de novos seres criados em laboratório, os cyborgs, os híbridos biotrônicos, a inteligência artificial equiparada à dos humanos, em síntese, diante de transhumanos?
Com o advento da revolução tecnocientífica, esta noção ganhou outros contornos sem que o homem se dê conta da mutação: “de repente, viramos e o mundo inteiro mudou de rosto”, escreve Péguy, que nos induz a pensar que entramos no novo mundo de costas. Quando conseguimos virar a cabeça defrontamos com um rosto tão desconhecido pelas inúmeras e impressionantes mudanças que tudo se mostra quase impenetrável, tornando difícil discernir qualquer imagem do humano. Assim, qual o lugar do homem na nova configuração do mundo, estruturada em uma cosmologia relativista e uma microfísica quântica?
Cientistas e pensadores identificam três áreas que afetam de maneira radical a natureza humana: a hipercomputação, a biotecnologia e a neurociência. Mas suspeitamos que nosso maior problema hoje está no descompasso da relação entre ciência e pensamento.
Ou, para usar os termos de Merleau-Ponty, no surgimento da rivalidade entre o
conhecimento científico e o saber metafísico, entendendo por metafísico “não a construção de conceitos através dos quais tentaríamos tornar menos sensíveis nossos paradoxos”, mas como a experiência de todas as situações da história pessoal e coletiva, “e de todas as ações que, assumindo-as, as transformem em razão”. Então é momento de também se indagar: haveria ainda espaço para a política hoje, entendendo por política não apenas a criação de direitos, mas também projetos e ideais abstratos?
Não estaríamos vivendo um momento no qual estes ideais “transcendentes” são esquecidos em troca dos “fatos” e dos objetos técnicos? Pensar a civilização tecnocientífica significa pensar a nova condição humana, aquilo que nos lança em direção a nós e contra nós — pôr em discussão não apenas as necessidades artificiais, mas também a origem dos problemas criados pelo próprio espírito. Seremos obrigados a pensar contra nosso próprio espírito? Outro eixo de interesse deste ciclo de conferências pretende mostrar a visão trágica do humano. Ao partir da afirmação de que o homem é estruturalmente ambivalente e originariamente desumano, “mistura abominável de volúpia e crueldade”, pode-se dizer que a tecnociência teria o papel de potencializar a barbárie. Mas a pergunta que se deve fazer antes de tudo é: há algo de estruturalmente inumano no humano? Ou, acompanhando Nietzsche, aquilo que se tem por inumano não seria o próprio “solo fecundo de onde pode surgir certa humanidade sob a forma tanto de emoções quanto de ações e obras?” Ou seja, ainda e sempre a grande indagação: o que é “humano” hoje?
Paul Valéry escreve que é preciso interessar os espíritos pelo destino do Espírito. Por “espiritual” ele designa tudo o que é ciência, arte e filosofia, dizendo que a relação do homem com o mundo hoje mostra com clareza que verdades estão quase mortas, valores em baixa, ruínas de esperanças e crenças, e principalmente ruína da confiança no espírito, confiança esta que era o fundamento da vida. E resume tal visão trágica: “as civilizações são tão mortais como qualquer ser vivo, não sendo mais estranho pensar que a nossa possa desaparecer com seus procedimentos, suas obras de arte, sua filosofia, seus monumentos, assim como desapareceram tantas civilizações desde as origens — como desaparece um grande navio que afunda”.
Outros pensadores — como Spengler, Kraus, Musil, Wittgenstein e Heidegger — caminham no mesmo sentido, desenvolvendo forte crítica da civilização dominada pela ciência e pela técnica. Todas essas idéias serão desenvolvidas ao longo do ciclo.
Por último, é importante citar a impressionante precisão com que Hannah Arendt examina os possíveis caminhos da humanidade na direção do que hoje já se convencionou chamar de realidade “pós-humana”: “É possível que nós, criaturas terrestres que começamos a agir como habitantes do universo, não sejamos mais capazes de compreender, ou seja, de pensar e de exprimir as coisas que, no entanto, somos capazes de fazer.
Nesse caso, tudo se passaria como se nosso cérebro, que constitui a condição material, física de nossos pensamentos, não pudesse mais acompanhar o que fazemos, de modo que doravante teríamos realmente necessidade de máquinas para pensar e para falar em nosso lugar”.
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