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MUTAÇÕES - A CONDIÇÃO HUMANA
APRESENTAÇÃO
Por muito tempo a idéia de crise ressoou o seu sentido negativo, imagem do mundo que prefigura ameaçadoramente a catástrofe. Hoje ela é vivida por nós como uma situação histórica nova que requer outra compreensão, momento semântico que faz emergir o sentido criador contido na crise. Sabemos que é essa crise de modelos de compreensão estabelecidos no presente que traz a semeadura do tempo que está por vir.
Mas será que não devemos abandonar a idéia de crise em favor de um conceito de mutações? Buscar responder essa questão foi o motivo fundamental da série de conferências realizada no ano passado para o Programa Cultura e Pensamento, um programa que o MinC vem afirmando nessa gestão desde 2005.
O ciclo Mutações: novas configurações do mundo abriu espaço para considerações tão interessantes quanto assustadoras, afirmando a necessidade dessa frase de força que cunhou Adauto Novaes: “Mutações: pois estaríamos passando de um estado de coisas para outro, sem que deste consigamos esboçar o real configurado em seu todo, pois estamos diante de uma imagem do mundo que ainda não é integralmente visível a ponto de receber nome próprio, mas já se mostra como mutante.
Nossas figuras do mundo presente tem por vezes contornos caóticos, ou espelham um vazio: são impressões de um agora que está em plena atualização”. Mesmo sem que enxerguemos sua face ou indiquemos trilhas que o mapeiem, nos situamos nesse mundo sem que as vertentes do pensamento humanista sirvam de esteio para nossa visada. Quem dirá compreender, com alguma globalidade, o que acontece hoje? Mas podemos dizer que a marca desse novo tempo é impressa pela predominância da tecnociência, uma predominância de uma forma de inteligência dos dias correntes que reinveste o trabalho humano de outra força social e os homens de outros poderes.
Essa nova paisagem antropológica descreve o cenário de tantos consensos que se formam em meio a nossa comunidade, algo que se faz, muitas vezes, à revelia da política ou produzindo alternativas sem conseqüências comuns; andamento que quase sempre não mede meios para alcançar seus fins. Isso fica claro quando perguntamo-nos: quem manipulará os códigos que delineiam o ser humano dos tempos atuais? Quem fará desse ser humano um tanto híbrido ou máquina o novo conceito estruturador de nossa vida em sociedade?
Não é o caso de tentar frear tal processo, sabemos disso, algo que seria vão diante da força dos tempos e das incertezas que nos habitam. Nossa questão é como não deixar que esse deslocamento faça-se à revelia de nós mesmo, de nosso ser político. As conferências deste ano são um momento reflexivo que põe em questão a necessidade da voz do homem e do lugar da política na contemporaneidade. Perguntar pelo sentido da Condição humana é solicitar a fala de quem é capaz de reagir publicamente a um estado de coisas. Nossos desafios de hoje dão-se em termos mais práticos, são políticos em sentido pleno, conceitual e atual, fazendo a ordem da mobilização ter outras razões e dispositivos sócioculturais.
E isso é imprescindível frente às questões que o mundo nos formula com sua palavra própria. Hoje nos perguntamos constantemente: como regularemos o uso de células-tronco que, ao mesmo tempo, salvam vidas e reavivam teses eugênicas? Como lidar com o poder dos dispositivos de controle que nos dão estabilidade segura e nos anulam subjetivamente? Sem essas respostas nossa vida pública ruma à edificação dos novos panópticos que antevia Foucault.
Nosso estado comum de dúvida é a face de uma indagação sobre a condição do humano que diz respeito a todos. Ela reverbera em cada um de nós e nos concerne como homens públicos. Hoje a idéia de cultura também é afetada por estas reconfigurações da vida comum, algo que afeta desde as subjetividades até as políticas nacionais. Assim para quem está diante de instituições culturais, cabe tratar de tudo um pouco, observando atentamente as mutações que atravessam sociedade e indivíduos e seus modos de cultivar valores.
É isso que requer de nós uma nova visão de estado e autoridade pública que seja capaz de dar suporte a projeção de cenários, fazendo circular concepções filosóficas do que é o humano, tratar das dificuldades de identidades positivas e da diversificação de perspectivas de valor, do esgotamento das noções modernas de filosofia e história, dos novos estatutos da sexualidade e do trabalho, e assim por diante.
O Ministério da Cultura afirma sua função pública nessa ocasião pondo-se à altura da contemporaneidade, missão que só é possível levar adiante através do esforço habitual da reflexão. O programa Cultura e Pensamento é nossa possibilidade de dar corpo às tantas esferas públicas que orbitam no espaço da sociedade atual.
Juca Ferreira Ministro Interino da Cultura
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