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CULTURA E PENSAMENTO EM TEMPOS DE INCERTEZA - MUTAÇÕES
APRESENTAÇÃO
Novas configurações
Adauto Novaes
A imagem do caos é o caos
Paul Valéry
As novas imagens do mundo convidam-nos a esquecer a noção de crise. Pensemos, pois, na idéia de mutação.
Muitos pensadores certamente estariam de acordo com a afirmação: vivemos uma época prodigiosamente vazia, na qual concepções políticas, crenças, idéias, sensibilidades, enfim, formas de existência e visões de mundo que antes pareciam dar sentido às coisas perdem valor. Ou melhor, vemos propriamente não o desaparecimento dos valores humanos, mas de certos meios de expressão desses valores, como observa Wittgenstein. Alguns pensadores falam de falência da imaginação, fracasso do entendimento, "incapazes que somos de dar-nos uma representação homogênea do mundo" que abarque os dados antigos e novos da experiência. Ora, sabe-se que são os meios da imaginação, junção de sensibilidade e desejo, que ajudam a solucionar enigmas. O estilo de vida e as concepções de mundo que hoje nos dominam são superficiais e mecânicas, e as antigas definições são insuficientes para entendê-las. A este novo fenômeno pode-se dar o nome de mutação, ou de revolução não do tipo das revoluções históricas que a precederam, mas uma verdadeira revolução antropológica, como escreveu o filósofo Jean Baudrillard em um de seus últimos ensaios: revolução que corresponde "a uma perfeição automática do aparelho técnico e uma desqualificação definitiva do homem, da qual nem ele mesmo tem consciência. No estágio hegemônico da técnica, que é o da potência mundial, o homem perde não apenas sua liberdade, mas a imaginação de si mesmo". Estaríamos vivendo o fim de uma idéia de civilização, diante de um novo mundo de reprodução automática, "obsolescência do homem em fase terminal, a quem seu destino escapa definitivamente (...) e inauguração de um mundo sem o homem (...) capitulação simbólica, derrota da vontade, muito mais grave do que qualquer fracasso físico?", pergunta Baudrillard. A acreditas nas suas descrições trágicas, estamos na era da capitulação do pensamento diante do seu duplo técnico, o que implica o "desaparecimento de qualquer sujeito, seja do poder, do saber ou da história, em proveito de uma mecânica operacional e de uma falta de responsabilidade total do homem". Seria ingenuidade negar o grande avanço das pesquisas científicas; mas quanto mais elas aumentam seu poder maior é o nosso sentimento de distância do entendimento: a velocidade das transformações é tamanha que "o olho do espírito não pode mais seguir as leis e concentrar-se em algo que se conserve" - observa Valéry.
Baudrillard não está sozinho neste diagnóstico: em dois livros recentes, nos quais analisa as idéias de modernidade, progresso, declínio e fim da civilização ocidental, o filósofo Jacques Bouveresse retoma algumas análises clássicas da visão apocalíptica do mundo - nem sempre concordando com elas, é certo - a partir de Wittgenstein, Karl Kraus, Nietzsche, Gottfried Benn e Spengler, nos ensaios La "conception apocalyptique du monde" ou Le pire est-il tout à fait sûr?; Gottfried Benn, ou Le peu de réalité & le trop de raison, e La vengence de Spengler. A simples retomada destes autores, alguns deles relegados ao esquecimento, é sintomática. Em uma conferência feita durante um congresso de médicos em 1958 com o título de "A medicina na era da técnica", Karl Jaspers inscreve a medicina no quadro global da tecnização e mercantilização do mundo no qual "mais o saber e o poder científicos aumentam, mais os aparelhos que ajudam no diagnóstico e tratamento são eficientes, mais se torna difícil encontrar um bom médico, ou mesmo um simples médico". Jaspers conclui com um diagnóstico "sinistro", como ele mesmo diz: "Nesta situação, parece objetivo perguntar-se se caminhamos em direção a uma existência que não é mais verdadeiramente humana, se nos dirigimos assim ao fim da humanidade. Mas não saberíamos responder a esta questão objetivamente recorrendo ao nosso saber. Para o médico, como para qualquer homem, a questão é, ao contrário, saber que decisão ele toma, por quê ele quer viver e agir. Esta perspectiva sinistra pode ocultar a abertura de novas possibilidades de nosso ser".
O que há em comum entre estes pensadores? Certamente não só as idéias de progresso e a relação da ciência e da técnica com o homem, mas também a dificuldade de o saber instituído explicar o mundo. A tecnociência pede novos saberes.
As mutações de hoje são toda uma aventura que se inscreve na nossa história de maneira veloz, com deslocamentos conceituais ainda em formação pela filosofia e pela antropologia, antecipação de categorias ainda incertas: não sabemos ainda nomear este novo estado de coisas. Neste momento de incerteza, somos capazes de reconhecer apenas o caráter transitivo dos acontecimentos e, com isso, a primeira pergunta que nos ocorre é: vivemos a continuidade ou a descontinuidade entre o passado e o presente? É certo que tradição e antecipação são duas categorias e dois problemas que acompanham a história do pensamento.
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