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MUTAÇÕES - A EXPERIÊNCIA DO PENSAMENTO
APRESENTAÇÃO

Adauto Novaes

    Depois de expor as novas configurações do mundo e depois de interrogar sobre a condição humana, ou o lugar do homem neste novo mundo, chegamos ao terceiro movimento das mutações com outra pergunta: como se faz a experiência do pensamento no mundo dominado pela tecnociência?

    Se nos ciclos anteriores partimos da hipótese de que a revolução tecnocientífica é feita no vazio do pensamento, isso não quer dizer que não haja trabalho do pensamento, mas que os novos pensamentos não vieram ainda à expressão e que não se pode tirar dos pensamentos passados “teorias” para o futuro. Novas experiências levam a novos pensamentos: “A filosofia está em todo lugar, até mesmo nos “fatos” – e ela não tem nenhum lugar de domínio no qual esteja preservada do contágio da vida”, escreve Merleau-Ponty em Signes. Resta, pois, à filosofia a “prospecção do mundo atual”, justamente “porque estamos no mundo, porque nossas reflexões nascem no fluxo temporal que procuram captar”. A falar de “fatos” e de “mundo atual”, Merleau-Ponty antecipava a crítica à ciência que se basta com suas experimentações, suas provas e axiomas, liberada das questões “arcaicas” da origem, do fundamento e da experiência do pensamento.

    O desenvolvimento das ciências tende a enfraquecer a noção de saber. Ou melhor, assistimos à ruína da “nobre arquitetura” construída com os dois pilares da ciência e do saber diante da convicção moderna de que qualquer saber que não traga na sua estrutura um poder efetivo tem apenas importância “convencional”: “Qualquer saber só tem valor se for descrição ou receita de um poder verificável” – escreve Valéry – “Desde então uma metafísica e mesmo uma teoria do conhecimento, quaisquer que sejam, encontram-se brutalmente separadas e distanciadas daquilo que é tido, mais ou menos conscientemente, por todos, por único saber real... Da mesma maneira, ética e estética se decompõem por si mesmas em problemas de legislação, estatística, história ou fisiologia... e em ilusões perdidas”. A nova realidade proposta pela tecnociência força-nos a voltar ao pensamento, a repor a velha arquitetura ciência-saber.

    A derrota do pensamento tem também outra origem: manipulamos objetos técnicos que fazem operações sem que tenhamos o mínimo conhecimento do seu funcionamento. Eles são capazes de responder a complicadas questões sem que possamos seguir a lógica mais elementar. A neurociência penetra nos arcanos do cérebro e põe, a cada dia, novos problemas para a percepção e novas questões sobre a natureza do homem. Mas além da inércia e das lamentações dos intelectuais, predomina a impotência do espírito para voltar-se sobre si mesmo e criar potências do espírito que se oponham ao espírito científico.

    A situação hoje certamente não é a mesma de quando o espírito podia exercer a função crítica: na modernidade, o espírito crítico estava em todas as áreas da atividade humana: crise da política, crise da ciência, crise das mentalidades, crise da crise... etc. Suspeitamos que o saber e o poder criados pela razão e pela racionalidade técnica, que resultaram na tecnociência - esta nova realidade do conhecimento -, estejam dificultando o trabalho do espírito. É preciso, pois, emancipar o espírito de sua própria criação. Hoje, quando a mutação toma o lugar da crise, o espírito sente-se à deriva. Como observa Paul Valéry, “aquilo que nós mesmos criamos conduz-nos para onde não sabemos e para onde não queremos ir”. A sensação é a de que o espírito perdeu o controle e o poder de operar e de saber. Uma das teses centrais de Valéry é: Je ne sais que ce que je sais faire. O verdadeiro conhecimento consiste, pois, não em compreender as coisas, os pensamentos e os seres apenas, mas em fabricá-los, experimentá-los. A experiência opera sobre os dados da natureza, da sociedade e do próprio pensamento.

    Diante da desordem e da banalidade do mundo, somos convidados a repensar conceitos como espaço, tempo, velocidade, afetividade, natureza, costumes, experiência, vazio, informação, esquecimento, memória, crença, tradição etc. Interroguemos, pois, sem aguardar respostas decisivas.